Recesso não precisa ser sinônimo de “desligar o cérebro”. Para quem toma decisões em ambientes de risco – conselhos, diretorias, alta gestão –, os dias mais silenciosos de dezembro e janeiro podem ser a melhor oportunidade do ano para ganhar distanciamento, refletir e voltar a 2026 com outras lentes. Em vez de uma lista aleatória, estas são sugestões de leitura para executivos que lidam com regulação intensa, exposição penal e crises recorrentes – exatamente o universo com que dialogamos no blog Lucchesi Advocacia. A seleção combina economia comportamental, negociação, gestão de reputação, biografias e ficção jurídica. Não é uma lista sobre “empresa em crise”, mas sobre como pessoas em posições-chave pensam, negociam, erram e se reinventam quando tudo está em jogo.
1. Rápido e devagar: duas formas de pensar – Daniel Kahneman
Começo pelo fundamento: como decidimos. Em Rápido e devagar: duas formas de pensar, o Prêmio Nobel Daniel Kahneman explica os dois sistemas que usamos o tempo todo: o pensamento rápido, intuitivo, automático; e o pensamento lento, analítico, custoso.
Para quem está à frente de uma companhia, a mensagem é desconfortável: boa parte das decisões estratégicas nasce de atalhos mentais que economizam esforço… e criam vieses. Aversão à perda, excesso de confiança, ilusão de controle – tudo isso influencia desde o modo como se responde a um e-mail sensível até a aceitação irrefletida de um aditivo contratual que pode, anos depois, ser questionado em investigações criminais.
É leitura densa, mas extremamente acessível, que ajuda executivos a reconhecer quando estão operando “no automático” em temas que exigem método, contraditório interno e registro cuidadoso de alternativas. O livro está disponível em edição física e em eBook Kindle na Amazon Brasil.
2. Como chegar ao sim – Roger Fisher, William Ury, Bruce Patton
Se a base é entender como pensamos, o passo seguinte é negociar melhor. Como chegar ao sim é o clássico de Harvard sobre negociação por princípios: foco em interesses, critérios objetivos, opções criativas e preservação de relacionamentos, sem ingenuidade.
Não é um livro jurídico, mas fala diretamente com quem lida com disputas regulatórias, conflitos com sócios, discussões com órgãos de controle e negociações complexas com o poder público. Em cenários de crise, é comum que dirigentes se sintam empurrados a “vencer” a qualquer custo ou “não ceder em nada”. O método de Fisher, Ury e Patton mostra que há um caminho intermediário: ser firme no conteúdo e respeitoso na forma, cuidando da prova documental enquanto se constrói o acordo.
A edição em português está disponível em formato físico e em eBook Kindle, e há também edições em inglês e espanhol.
3. Negocie como se sua vida dependesse disso – Chris Voss
Depois de Harvard, vale ouvir quem negociou em situações literalmente de vida ou morte. Em Negocie como se sua vida dependesse disso, o ex-agente do FBI Chris Voss traduz para o mundo corporativo técnicas de negociação usadas em casos de sequestro, terrorismo e crises internacionais.
A ligação com o universo empresarial é direta: o livro mostra como escuta ativa, perguntas calibradas e empatia estratégica podem destravar mesas em que só há desconfiança e medo – algo muito próximo do que vemos em negociações de leniência, acordos com o Ministério Público ou conversas duras com reguladores.
Em 2026, executivos que precisem negociar sob holofotes – imprensa, redes sociais, órgãos de controle – terão de combinar método (à la Harvard) com a leitura fina de contexto que Voss descreve. A edição brasileira está disponível em capa comum e em Kindle; há também versões em inglês e espanhol.
4. A Era do Escândalo – Mário Rosa
Se negociação é o “como”, reputação é o “onde”. Em A Era do Escândalo, Mário Rosa relata bastidores de grandes crises de imagem no Brasil e mostra como vazamentos, narrativas e percepções se formam – e, muitas vezes, saem totalmente do controle.
Para executivos, o livro é incômodo porque evidencia algo simples: não existe mais crise “só jurídica”. A maneira como a empresa reage em público – entrevistas, notas, omissões, silêncios – alimenta investigações, incentiva delações e influencia, sim, a leitura de juízes e promotores.
Ler esse livro com o olhar de 2026 é quase um exercício de “pré-mortem reputacional”: o que, na sua empresa, poderia virar manchete em 24 horas? Que decisões técnicas, se mal explicadas, pareceriam privilégio, conluio ou descaso? A obra está disponível em edição física e, em algumas lojas, também em formato digital, em português.
5. Chatô, o Rei do Brasil – Fernando Morais
Toda empresa opera em algum ecossistema de poder. Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais, é a biografia monumental de Assis Chateaubriand – empresário de mídia que transitou entre imprensa, política, finanças e cultura ao longo do século XX.
Por que sugerir essa leitura para executivos em 2026? Porque a trajetória de Chatô, com seus lances geniais e seus abusos, ajuda a entender como se constroem (e se destroem) reputações, alianças e impérios empresariais quando quase não há freios institucionais. Em um momento em que o escrutínio sobre a atuação privada nunca foi tão intenso, olhar para esse passado com as lentes do direito penal empresarial é um antídoto contra ingenuidades.
A biografia está disponível em eBook Kindle e em edições físicas, em português.
6. Trapaça – Lula Costa Pinto
Se Chatô mostra a construção de um império, Trapaça: saga política no universo paralelo brasileiro acompanha, em tom jornalístico e de bastidores, a crise que culminou no impeachment de Fernando Collor – mas contada a partir de uma chave especialmente útil para o empresariado: as disputas pelo controle de grupos econômicos familiares em meio a um ambiente político tóxico.
O livro expõe, de forma viva, como brigas societárias mal resolvidas, alianças de ocasião e a ausência de governança mínima podem escalar até níveis que ninguém imaginava – inclusive com consequências criminais para pessoas físicas que, em tese, “só estavam fazendo negócios”. Para quem atua em empresas familiares, é quase um manual do que não fazer.
A obra está disponível em eBook Kindle na Amazon e, pontualmente, em edições físicas, em português.
7. O Testamento – John Grisham
Por fim, uma ficção que poderia passar por caso real. Em O Testamento, John Grisham acompanha a morte de um bilionário americano e a batalha entre herdeiros pelo destino de uma fortuna de onze bilhões de dólares, com parte da trama se desenrolando no Pantanal brasileiro.
Por trás do enredo envolvente, o livro trata de temas que qualquer executivo que lide com patrimônio relevante conhece bem: planejamento sucessório, conflitos entre ramos da família, expectativa em torno de heranças e pressão sobre advogados que precisam, ao mesmo tempo, cumprir seu dever profissional e navegar um tabuleiro emocionalmente explosivo.
É uma boa porta de entrada para quem gosta de thrillers jurídicos e quer, nas férias, descansar sem se afastar totalmente dos dilemas que marcam a vida empresarial contemporânea. A edição em português está disponível em formato físico na Amazon e há versões em inglês e espanhol.
Para que servem essas leituras em 2026?
Mais do que “passar o tempo”, estes sete livros conversam com questões muito concretas que tenho visto no dia a dia da advocacia criminal empresarial: qualidade da decisão sob pressão, negociação em contexto hostil, gestão de crises de imagem, governança em grupos familiares, sucessão patrimonial e a linha tênue entre risco calculado e exposição penal.
Ler com esse filtro – o filtro de quem responde por pessoas, ativos e reputação – é uma forma de chegar a 2026 um pouco mais preparado para o inesperado. Que essas sugestões de leitura para executivos sirvam não apenas como companhia para o recesso, mas como um lembrete de que pensar melhor, negociar melhor e comunicar melhor é, em grande medida, também uma forma de prevenção penal.
Prepare a sua pilha de livros, organize alguns dias de descanso verdadeiro e, desde já, Feliz 2026.



